Sunday, June 28, 2009

Livro do mês: "O fantasma sai de cena" de Phillop Roth

Um pequeno excerto:
"Que me surpreendeu mais nos meus primeiros dias de deambulação pela cidade? A coisa mais óbvia - os telemóveis. (...) Lembrei-me de uma Nova Yorque em que as únicas pessoas que subiam a Broadway parecendo que iam a falar sozinhas eram malucas. Que tinha acontecido nestes dez anos para que de repente houvesse tanto para dizer -tanto e tão urgente que não pudesse esperar para ser dito? (...) não podia deixar de me perguntar o que seria que antes refreava as pessoas e agora tinha desaparecido a ponto de as levar a falar constantemente para dentro de um telefone em vez de passearem sem terem ninguém a vigiá-las, momentaneamente solitárias, assimilando as ruas através dos seus sentidos animais e pensando as miríades de pensamentos que as actividades de uma cidade inspiram. Para mim, aquilo fazia as ruas parecerem cómicas e as pessoas ridículas. E no entanto também me parecia uma verdadeira tragédia. Erradicar a experiência da separação não pode deixar de ter um efeito dramático. Quais serão as consequências? Sabemos que podemos contactar a outra pessoa em qualquer altura, e se não pudermos ficamos impacientes - impacientes e furiosos como pequenos deuses estúpidos. Percebi que o silêncio de fundo tinha sido abolido há muito dos restaurantes, elevadores e estádios, mas que a imensa solidão dos seres humanos tivesse de produzir neles esta ilimitada necessidade de se fazerem ouvir, e a concomitante indiferença ao facto de serem ouvidos por quem quer que fosse -bem, eu, que tinha passado grande parte da minha vida na era da cabina telefónica, com sólidas portas de dobrar que permitiam fechá-la bem fechada, fiquei impressionado com toda esta falta de privacidade (...)

Sunday, June 7, 2009

Livro do mês:

"A hora do lobo" de Jiang Rong
Fala-nos de um mundo que já não existe: a vida nómada na estepe da Mongólia. Fala-nos ainda de coragem, honra, espiritualidade, em contraponto à cobardia, facilitismo, monotonia.
É sobretudo um livro comovente

Monday, May 25, 2009

Livro do mês:

DEAF SENTENCE, de David Lodge
Muito interessante e bem escrito. Actual. Um dos meus autores preferidos.
Transcrevo uma pequena passagem:
"To me the honour is sufficient of belonging to the universe -such a great universe, and so great a scheme of things. Not even Death can rob me of that honour. For nothing can alter the fact that I have lived; I have been I, if for ever so short a time. And when I am dead, the matter with composes my body is indestructible - and eternal, so that come what may to my "Soul", my dust will always be going on, each separate atom of me playing its separate part - I shall still have some sort of finger in the pie. When I am dead, you can boil me, burn me, drown me, scatter me - but you cannot destroy me: my little atoms would merely deride such heavy vengeance. Death can do no more than kill you."

Tambem não percam "Small World" do mesmo autor, um dos meus livros favoritos

Tuesday, April 28, 2009

Já não há ideais!

Emociono-me até às lágrimas com as imagens gravadas da revolução do 25 de Abril e Período Revolucionário que se lhe seguiu. E as canções do Zeca Afonso e outras de intervenção são de uma candura que enternece. É que não consigo deixar de comparar os idealismos que vivi nessa época com o, pior que conservadorismo, o boiismo ou ovelhismo actual. Nessa altura fizemos asneiras é certo: RGA (para os mais novos a informação: Reuniões Gerais de Alunos) onde saneávamos professores, decidíamos de manifestações e apoios ao proletariado, fizeram-se as nacionalizações, a reforma agrária, acabou-se com uma guerra e (PASME-SE) iniciou-se o Serviço Médico à Periferia onde os colegas foram generosamente levar o Saber Médico a povoações que apenas tinham acesso aos curandeiros, endireitas e Mulheres Habilidosas (sobretudo nos partos). Surgiu posteriormente o SNS nascido num idealismo desenfreado baseado nos sentimentos de igualdade, fraternidade e acesso à “Paz, pão, habitação, saúde, educação”.
Actualmente não somos os mesmos médicos: desertamos dos ideais da Medicina como Arte de aliviar o Sofrimento. Cumprimos o ponto (ou antes o dedómetro: as Comissões de Higiene que nos obrigam a responder on-line se lavamos as mão; não acham que provavelmente iremos contaminar-nos no dito sítio onde centenas põem um dedo?), fazemos as consultas seguindo o que gestores decidiram com régua e esquadro serem os seus tempos : primeiras x minutos e segundas y (claro que estamos a falar de médias mas não se esqueça Srº Drº que existem inquéritos aos doentes perguntando do exagero do tempo de espera para a consulta: forma de pressão ou não?), decidem também com rigor da existência dos tempos de pausa (não se queixe Sr Drº Ovelhinha pois até tem a benesse de 15 minutos entre as 10.30 e as 10.45; não pode ser noutra altura? Não Srº pois agora já não existem os períodos manhã e tarde mas sim 5 períodos: 2 de manhã e 3 de tarde e a pausa está para separá-los. Existe alguma razão válida e no interesse do doente perguntará a ovelha negra, como negra que é faz jus á sua cor (negro é a cor do Anarquismo não se esqueçam). Trata-se da necessidade da uniformização claro está, não percebeu? Ah! Deve trazer um grande contributo à qualidade do Atendimento Médico e da Humanização palavras que actualmente substituíram os ideais de outrora.
Pois e assim vamos seguindo cansados, e é um ver se te avias de pedidos de Licença sem Vencimento e Reformas Antecipadas. Que é feito dos antigos Directores que só abandonavam o barco quando obrigados pela idade, mentores e mestres dos mais novos em Dignidade, Amor à Arte e muito interessante ao SEU SERVIÇO? Que é feito do médico que tira tempo para se sentar com o seu doente e simplesmente estar um pouco ao seu lado? Que é feito do médico que na hora de Serviço lia alguns artigos, dava o exemplo e tirava tempo para ensinar os mais novos?
Já não há ideais! Mas o mais triste é que JÁ NÂO HÁ MESTRES!

Sunday, March 15, 2009

Livro do mês:

Hoje li de uma assentada o livro: "Anti-cancro. Um novo estilo de vida" de David Servan-Schreiber, autor de um livro tambem muito interessante chamado "Curar". O autor é um conceituado psiquiatra e um dos fundadores do Centro de Medicina Complementar da Universidade de Pittsburgh. Recomendo o livro a todos, quer tenham cancro ou não, pois é muito enriquecedor. Aborda os aspectos preventivos e augmentativos da cura, e no fundo ajuda-nos a todos a procurar uma vida mas saudável e ao mesmo tempo mais alegre e enriquecedora.
Boa leitura

Wednesday, March 11, 2009

Uma manhã de férias...

Hoje tirei o dia para férias e resolvi de manhã dar a minha caminhada. Sinto sempre um incómodo quando ando na cidade em horários em que habitualmente estou a trabalhar pois apesar de legalmente estar correcto sempre me acompanha a sensação de ilegalidade, de efectuar algo interdito! E ao cruzar-me com as outras pessoas pergunto-me muitas vezes, com alguma inveja, porque raio não estão a trabalhar como seria suposto a uma 4ª feira de manhã. Assim cruzo-me com donas de casa que vão e vêm das compras, com supostos desempregados nos cafés e a fumar os seus cigarros (mais uma despesa fútil e com custos para a sociedade), enfim para cada um invento uma história. É mais forte do que eu... Dou por mim a detestar o conceito de dona de casa (algo que eu gostaria de ser é certo e aproveitaria para me dedicar á leitura e jardinagem), têm a ilusão que trabalham e muito se queixam mas a realidade é que têm todos os dias para fazer o que as restantes mulheres trabalhadoras fazem para além dos seus horários de 35, 42 e por vezes 60 h semanais nos seus empregos.
Apesar deste dia de férias estou azeda como se vê: é que tenho de ir ao meu local de trabalho por 2 horas e tenho uma comunicação para apresentar amanhã pelo que tenho estudo pela frente! E estou eu de férias!!!!
Quem me dera ser dona de casa...

Sunday, March 1, 2009

Livro do mês:

Recomendo um livro que se lê em 2 a 3 horas, mas de uma imaginação interessante tocando a ficção e a filosofia, e em que se aborda a questão do destino, livre arbítrio e o conceito de segunda oportunidade na vida...
Trata-se do livro "A casa do esquecimento" de Fernando Dinis.
Boa leitura

Sunday, February 22, 2009

Despudor...

Privacidade precisa-se!
Vivemos numa sociedade sem privacidade. E não estou a falar só dos programas de televisão tipo "big brother" ou agora a versão recente "Verdade ou mentira" (não sei o nome dos programas mas refiro-me aos ditos em que despuderadamente alguém responde na TV sobre a sua vida privada pondo a nu a sua vida profissional, pessoal, familiar, sexual, respondendo sobre o que fez, o que pensou, o que desejou, ...). Falo tambem do nosso dia-a-dia: a google-earth entra-nos nos jardins e terraços, somos filmados nas vias públicas, nos parques de estacionamento, nos locais de trabalho, controlam-nos pelos dedómetros, cartões de crédito,... nos nossos locais de trabalho temos o dever de comunicar a uma Comissão de Risco se estivermos grávidas, para avançarmos no estudo e inserir-nos nas "Novas Oportunidades" temos de contar a "Nossa história de Vida", falamos em Congresso e querem filmar-nos, estamos a fazer tratamento e querem fotografar-nos, .... já não podemos parar. Temos realmente Um Glorioso Mundo NOvo" mas o mais estranho é que estamos contentes com o mesmo!
Fiquem bem e lembrem-se do poema de Fernando Pessoa:
" Cerca de grandes muros quem te sonhas..." Procurem-no pois não sei de cor o resto

Sunday, February 8, 2009

Mensário...

Prometi a mim mesma escrever neste blog pelo menos 1 vez por mês. Assim não seria um diário mas um "mensário". O problema é que este mês passou mais uma vez a correr: trabalho entre as 8 h e as 20h, por vezes ainda trabalho de estudo para casa, ... o que sobra para vos (população em geral) dizer? Talvez algumas passagens recordadas.
- No entrudo pega tudo, ditado popular. Assim na volta da lua do Carnaval é altura de plantar para quem se dedicar às lides agricolas.
- Os telejornais têm aberto com as notícias do encerramento de empresas e a taxa de desemprego parece que está nos 10%.
- Apesar disso não vejo as pessoas muito apegadas ao trabalho. Pedem-se orçamentos e tardam as respostas, jovens pouco interessados na auto-valorização, ...
- Quanto à nossa saúde e vivência hospitalar, sentimos a vida como um equilíbrio: morre-se de Enfarte do miocárdio sendo a Medicina incapaz de reverter este flagelo, mas os milagres acontecem, mesmo quando os próprios deles não se apercebam e é ver as ressuscitações conseguidas, o reverter de endocardites, ....
Conclusão: este mês alguns de nós continuamos a viver!
Já me esquecia: Conprei uma consola Wii e tenho-me divertido ao final do dia efectuando pelo menos 30 minutos de exercício. Aconselho a todos e joguem com toda a família.
Um bom mês e como dizia alguém: "façam o favor de ser felizes!"

Friday, December 26, 2008

Reabilitação cardíaca

Se querem prevenir a doença cardiaca vão a http://reabilitacaocardiaca.com.sapo.pt/. Encontrarão alguns conselhos

Reflexões - livro do mês, ...a propósito do sentido da vida...

Este mês recomendo um livro de filosofia: "A Vida Eterna" de Fernando Savater. Reflecte sobre a r~eligião, a morte, a vida eterna. Para quem é ateu como eu sabe bem encontrar alguma comunhão e simbologia na vida.
Um pequeno excerto:
(...) o sentido nuclear do romance cervantino (a propósito do cléssico da literatura mundial Dom Quixote) encerra-se nalgumas poucas palavras que Sancho Pança pronuncia atormentado no final do mesmo, à beira do leito onde agoniza aquele que foi durante tanto tempo e com sorte tão adversa senhor do seu arbítrio: « Vossa mercê não vos deixeis morrer, senhor meu, mas segui antes o meu conselho e vivei por muitos anos; porque a maior loucura que um homem pode cometer nesta vida é deixar-se morrer, sem mais nem menos, sem que ninguém o mate nem outras mãos lhe ponham fim que não as da melancolia.» É este o código e a mensagem de todo o livro: o momento em que Sancho compreendeu finalmente a missão aparentemente absurda do cavaleiro andante, revelação que lhe chega precisamente quando Dom Quixote a abandona e se resigna a morrer. Sancho compreende que todo o empenho quixotesco consistiu numa prolongada batalha contra a necessidade mortal que angustia o homem: um não deixar-se morrer, um resistir à paralisia da rotina, do realismo que a pouco e pouco aniquila. Tanta aventura quixotesca era um capricho, mas um capricho indomável; pura demência, se é que admitimos que a sanidade reside em reconhecer e acatar a necessidade, mas uma demência salvadora da nossa humanidade, da nossa categoria de seres activos, simbólicos e portadores - pelo menos aos nossos olhos- de significado. Dom Quixote é o santo patrono e o mártir da invenção humana de propósitos para a vida.